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quinta-feira, 26 de março de 2026

Serei um mestre Pokémon!

 



Onix, ataque rápido!

— Bulbasaur, use seu chicote para pegar impulso e desviar do ataque!

Antes mesmo que o ataque rápido de Onix acertasse Bulbasaur, dois chicotes de cipó saíram rapidamente das costas do meu Pokémon em direção ao chão e, como uma mola, ele foi lançado para trás.

— Bulbasaur, Folha Navalha!

— HAHAHAHA! — Brock soltou uma gargalhada em tom de deboche, pois sabia que a Folha Navalha do meu Bulbasaur jamais surtiria efeito contra um Pokémon do tipo pedra.

— Vocês, treinadores novatos, não aprendem nunca. Essas folhas jamais machucariam meu Onix.

— E quem disse que eu estou mirando no seu Onix?

As seis folhas navalha que haviam saído das costas do meu Pokémon, ao se aproximarem de Onix, se dividiram: três para a direita e três para a esquerda. Rodopiavam rapidamente até quebrarem todas as janelas laterais do estádio da cidade de Pewter.

Os raios do sol adentraram o estádio, iluminando completamente o ambiente. O líder de ginásio estava abismado — não havia entendido nada.

— Bulbasaur, prepare o Raio Solar!

— Hum… Muito esperto, garoto. Mas o Raio Solar precisa de tempo para ser carregado! Antes disso, meu Onix destruirá seu Bulbasaur!

— Vamos ver! — desafiei.

— Onix, use sua rabada!

— Agora, rola o dado pra ver se o seu Pokémon consegue desviar do ataque. Vale lembrar que você terá uma penalidade de -1 — disse o mestre, um pouco surpreso com a minha criatividade. Tentava recordar se, em algum momento, aquilo havia sido utilizado no desenho.

— Rola o dado de habilidade. Vai ter que tirar 1 ou 2 — acrescentou o narrador da mesa.

Em 3D&T, o mestre rola o dado de habilidade para acertar o jogador e, em seguida, o jogador rola para desviar. O dado possui seis lados; nos jogos de RPG, existem dados de quatro, seis, dez, doze e vinte lados.

Clima tenso no ar.

Balanço os dados algumas vezes com as mãos, mas, antes de lançá-los na calçada, paro por alguns segundos, fecho as mãos e os olhos, puxo o ar do diafragma e sopro na mão — um típico ritual de sorte entre jogadores de RPG — e, pela primeira vez, realizado por mim.

Abro as mãos.

Os dados rolam… e rolam.

Clima tenso.

Meus amigos se entreolham — até que uma voz grita, em comemoração:

— Tirou UM!

Bulbasaur usa o chicote novamente para se impulsionar pelo ar. Por milésimos de segundo, o rabo de pedra passa devastando o campo do estádio.

— Bulbaaa! — Bulbasaur grita, esperando meu comando. A energia do sol estava completamente carregada em suas costas.

— Você pode fazer um teste de habilidade para atacar, desta vez sem penalidade.

Rolo o dado. Minha habilidade? Valor 3 — o que me dava 50% de chance de acerto em um d6.

Tiro 3.

Acerto o ataque.

Onix possuía habilidade 4, podendo tirar de 1 a 4 para desviar. O mestre rola o dado.

Cai 6.

— ERRO CRÍTICO! — gritou Danilo.

Danilo, um dos meninos da minha rua, apesar de não ser o narrador daquela aventura, era um dos jogadores mais experientes. Seu irmão mais velho, Diego, havia lhe apresentado o RPG. Na época, ele narrava uma mesa de Advanced Dungeons & Dragons.

— O que é isso? — perguntei.

— Quando você tira 1, é acerto crítico. Já o 6 é erro crítico — explicou. — Além disso, você ganha um dado extra de dano.

Meu PDF era 2. O Raio Solar, por carregar um turno, dobrava esse valor.

E eu ainda tinha um dado extra.

Rolo cinco dados de dano.

Total: 18.

A luz do sol que invadia o estádio energizava completamente meu Pokémon.

— Bulbasaur… RAIO SOLAR!

— BULBAAAAAAAAA… SAUROOOOO!

Um feixe de luz colossal atravessa o campo.

Onix, sem reação, recebe todo o impacto.

Cai.

0 pontos de vida.

— Retorne, Onix! — Brock riu. — Parabéns, moleque… você me surpreendeu.

Ele lança a Pokébola. Onix desaparece.

Brock caminha lentamente até mim.

— Tome. É sua por merecimento.

Ele abre a mão com respeito.

A insígnia de pedra.

Meus amigos comemoram:

— Mandou bem, hein!
— Sorte de principiante!

Então, um assovio corta o momento.

— O Douglassss!

Era minha mãe.

Hora de ir pra casa.

Me despeço dos meus amigos e pego minha ficha de personagem — uma folha de caderno —, um lápis e uma borracha.

Começamos nossa aventura às 13h.

Já eram 21h.

Quando estamos imersos no RPG, o tempo passa voando.

Eu era o mais novo da turma. Tinha nove anos, mas o tamanho de um adolescente.

— Valeu, pessoal! — me despedi.

Aquele foi, talvez, o dia mais mágico da minha vida.

O RPG era fascinante. Uma espécie de teatro de mesa, onde os jogadores assumem o papel de seus personagens.

Mas o mais importante não era isso.

E sim os laços que criamos, sentados naquela calçada…

Fingindo sermos treinadores Pokémon.