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Onix, ataque rápido!
— Bulbasaur, use seu chicote para pegar impulso e desviar do ataque!
Antes mesmo que o ataque rápido de Onix acertasse Bulbasaur, dois chicotes de cipó saíram rapidamente das costas do meu Pokémon em direção ao chão e, como uma mola, ele foi lançado para trás.
— Bulbasaur, Folha Navalha!
— HAHAHAHA! — Brock soltou uma gargalhada em tom de deboche, pois sabia que a Folha Navalha do meu Bulbasaur jamais surtiria efeito contra um Pokémon do tipo pedra.
— Vocês, treinadores novatos, não aprendem nunca. Essas folhas jamais machucariam meu Onix.
— E quem disse que eu estou mirando no seu Onix?
As seis folhas navalha que haviam saído das costas do meu Pokémon, ao se aproximarem de Onix, se dividiram: três para a direita e três para a esquerda. Rodopiavam rapidamente até quebrarem todas as janelas laterais do estádio da cidade de Pewter.
Os raios do sol adentraram o estádio, iluminando completamente o ambiente. O líder de ginásio estava abismado — não havia entendido nada.
— Bulbasaur, prepare o Raio Solar!
— Hum… Muito esperto, garoto. Mas o Raio Solar precisa de tempo para ser carregado! Antes disso, meu Onix destruirá seu Bulbasaur!
— Vamos ver! — desafiei.
— Onix, use sua rabada!
— Agora, rola o dado pra ver se o seu Pokémon consegue desviar do ataque. Vale lembrar que você terá uma penalidade de -1 — disse o mestre, um pouco surpreso com a minha criatividade. Tentava recordar se, em algum momento, aquilo havia sido utilizado no desenho.
— Rola o dado de habilidade. Vai ter que tirar 1 ou 2 — acrescentou o narrador da mesa.
Em 3D&T, o mestre rola o dado de habilidade para acertar o jogador e, em seguida, o jogador rola para desviar. O dado possui seis lados; nos jogos de RPG, existem dados de quatro, seis, dez, doze e vinte lados.
Clima tenso no ar.
Balanço os dados algumas vezes com as mãos, mas, antes de lançá-los na calçada, paro por alguns segundos, fecho as mãos e os olhos, puxo o ar do diafragma e sopro na mão — um típico ritual de sorte entre jogadores de RPG — e, pela primeira vez, realizado por mim.
Abro as mãos.
Os dados rolam… e rolam.
Clima tenso.
Meus amigos se entreolham — até que uma voz grita, em comemoração:
— Tirou UM!
Bulbasaur usa o chicote novamente para se impulsionar pelo ar. Por milésimos de segundo, o rabo de pedra passa devastando o campo do estádio.
— Bulbaaa! — Bulbasaur grita, esperando meu comando. A energia do sol estava completamente carregada em suas costas.
— Você pode fazer um teste de habilidade para atacar, desta vez sem penalidade.
Rolo o dado. Minha habilidade? Valor 3 — o que me dava 50% de chance de acerto em um d6.
Tiro 3.
Acerto o ataque.
Onix possuía habilidade 4, podendo tirar de 1 a 4 para desviar. O mestre rola o dado.
Cai 6.
— ERRO CRÍTICO! — gritou Danilo.
Danilo, um dos meninos da minha rua, apesar de não ser o narrador daquela aventura, era um dos jogadores mais experientes. Seu irmão mais velho, Diego, havia lhe apresentado o RPG. Na época, ele narrava uma mesa de Advanced Dungeons & Dragons.
— O que é isso? — perguntei.
— Quando você tira 1, é acerto crítico. Já o 6 é erro crítico — explicou. — Além disso, você ganha um dado extra de dano.
Meu PDF era 2. O Raio Solar, por carregar um turno, dobrava esse valor.
E eu ainda tinha um dado extra.
Rolo cinco dados de dano.
Total: 18.
A luz do sol que invadia o estádio energizava completamente meu Pokémon.
— Bulbasaur… RAIO SOLAR!
— BULBAAAAAAAAA… SAUROOOOO!
Um feixe de luz colossal atravessa o campo.
Onix, sem reação, recebe todo o impacto.
Cai.
0 pontos de vida.
— Retorne, Onix! — Brock riu. — Parabéns, moleque… você me surpreendeu.
Ele lança a Pokébola. Onix desaparece.
Brock caminha lentamente até mim.
— Tome. É sua por merecimento.
Ele abre a mão com respeito.
A insígnia de pedra.
Meus amigos comemoram:
— Mandou bem, hein!
— Sorte de principiante!
Então, um assovio corta o momento.
— O Douglassss!
Era minha mãe.
Hora de ir pra casa.
Me despeço dos meus amigos e pego minha ficha de personagem — uma folha de caderno —, um lápis e uma borracha.
Começamos nossa aventura às 13h.
Já eram 21h.
Quando estamos imersos no RPG, o tempo passa voando.
Eu era o mais novo da turma. Tinha nove anos, mas o tamanho de um adolescente.
— Valeu, pessoal! — me despedi.
Aquele foi, talvez, o dia mais mágico da minha vida.
O RPG era fascinante. Uma espécie de teatro de mesa, onde os jogadores assumem o papel de seus personagens.
Mas o mais importante não era isso.
E sim os laços que criamos, sentados naquela calçada…
Fingindo sermos treinadores Pokémon.
